Liberdades de escolha – A consciência nem deveria ter data marcada

“Realmente, se um dia de fato se descobrisse uma fórmula para todos os nossos desejos e caprichos – isto é, uma explicação do que é que eles dependem, por que leis se regem, como se desenvolvem, a que é que eles ambicionam num caso e noutro e por aí fora, isto é uma fórmula matemática exata – então, muito provavelmente, o homem deixaria imediatamente de sentir desejo. Pois quem aceitaria escolher por regras?
Além disso, o ser humano seria imediatamente transformado numa peça de um orgão ou algo do gênero;


O que é um homem sem desejos, sem liberdade de desejo e de escolha, senão uma peça num orgão?”
 
Fiodor Dostoievski“Cadernos do Subterrâneo”


“O homem nasceu livre e por toda parte vive acorrentado”
J J Rosseau

Quimera

A vida é feita de sonhos.
Há 30 anos, de um parto sofrido nascia Argemira, sem choro, à luz de velas. Muito sua mãe sofreu nesse parto, que em seu casebre concebeu.
Cresceu lentamente, tão raquítica e delicada. E seus primeiros passinhos demoraram a acontecer. Falar algumas palavras, somente depois dos 7 anos de idade.
Na escola, caçoada, tão tímida e isolada, não conseguia aprender. Menina estranha, acuada, simplesmente não aprendia nada.
Frequentou, sim, até a 4®série. Mas a escola abandonou, tamanho constrangimento por nada aprender. E cabe aqui parentesar. Quem abandonou quem?
Então os anos correram. Argemira, humilde, não obstante batalhadora, sempre em casa, solitária, sonhadora. O sonho? Aprender.
Argemira nunca esqueceu o contato que teve com as palavras escritas. Guarda, ainda, seu caderninho de caligrafia.
Todos os dias, lá no mesmo casebre que um dia a recebeu em um rasgo purpúreo, senta-se na mesinha capenga da cozinha. À luz enfumaçada do lampião, Argemira tenta ler sua bíblia. Não consegue. Ainda assim persiste, todos os dias, em suas tentativas.
Argemira tem um sonho. Quer ler e escrever.
A vida é feita de sonhos.
A sequela irremediável de um parto há 30 anos foi seu cérebro danificado.
Mas Argemira não se rende. Não precisa de piedade. Não precisa de suposições discriminatórias. Nem se importa com discursos excludentes, pois seus desejos são imunes ao pieguismo sociodramático.
Simplesmente crê que um dia vai aprender.
Afinal tem um sonho.

Tão bom viver

“Tão bom viver dia a dia…

A vida assim, jamais cansa…


Viver tão só de momentos


Como estas nuvens no céu…


E só ganhar, toda a vida,


Inexperiência… esperança…


E a rosa louca dos ventos


Presa à copa do chapéu.


Nunca dês um nome a um rio:


Sempre é outro rio a passar.


Nada jamais continua,


Tudo vai recomeçar!


E sem nenhuma lembrança


Das outras vezes perdidas,


Atiro a rosa do sonho


Nas tuas mãos distraídas…”

-Canção do dia de sempre-
Mário Quintana